terça-feira, 18 de novembro de 2008

Ismália
Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismalia enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

‘Quem é você?’ disse a Lagarta

Este não foi um início de conversa animador. Alice respondeu, um tanto timidamente, ‘Eu mal sei, senhora, neste momento – pelo menos eu sei quem eu ERA quando acordei essa manhã, mas penso que devo ter mudado muitas vezes desde então.’

‘O que você quer dizer com isso?’ disse a Lagarta, ‘explique-se’

‘Receio que não possa me explicar, senhora,’ disse Alice, ‘pois não sou eu mesma, você entende?’

‘Eu não entendo’ disse a Lagarta

‘Receio que não consiga ser mais clara’, respondeu Alice, ‘pra começar, eu mesma não entendo; e ter tamanhos diferentes em um mesmo dia é muito confuso’.

‘Não é não’ disse a Lagarta

‘Bom, talvez você não tenha passado por isso ainda’, disse Alice, ‘mas quando você tiver que entrar no casulo – você terá que fazer isso, sabia – e então se transformar em uma borboleta, você se sentirá estranha, não acha?

‘Nem um pouco’ disse a Lagarta

‘Bem, talvez seus sentimentos sejam diferentes’, disse Alice, ‘só sei que isso tudo é muito estranho para mim.’

‘Você!’ disse a Lagarta desdenhosamente. ‘Quem é você?’

CARROLL, Lewis. Alice in wonderland. 1865.
(tradução da tia)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

(caetano - é proibido proibir – discurso)

:

“Que juventude é essa?

Voces jamais conterão ninguém.

Voces são iguais sabe a quem?

Vocês são iguais sabe a quem?

Tem som no microfone?

Vocês são iguais sabe a quem?

Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores.

Voces não diferem em nada deles... não diferem em nada.

E por falar nisso, viva Cacilda Becker!”


Diálogo ( Caio F.)

A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro, Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: É.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: É.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, voc~e não vê?
A: eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)

quarta-feira, 12 de março de 2008

Ovo (LFV)

Agora essa. Descobriram que ovo, afinal, não faz mal. Durante anos, nos aterrorizaram. Ovos eram bombas de colesterol. Não eram apenas desaconselháveis, eram mortais. Você podia calcular em dias o tempo de vida perdido cada vez que comia uma gema.

Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver ovo fazia mal. E agora estão dizendo que foi tudo um engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca.

Sei não, mas me devem algum tipo de indenização. Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia ao ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êxtase e ela se desmanchará, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso escorrerá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com pão. Ou existe e eu é que tenho andado na turma errada. O fato é que quero ser ressarcido de todos os ovos fritos que não comi nestes anos de medo inútil. E os ovos mexidos, e os ovos quentes, e as omeletes babadas, e os toucinhos do céu, e, meu Deus, os fios de ovos. Os fios de ovos que não comi para não morrer dariam várias voltas no globo. Quem os trará de volta? E pensar que cheguei a experimentar ovo artificial, uma pálida paródia de ovo que, esta sim, deve ter me roubado algumas horas de vida a cada garfada infeliz. Ovo frito na manteiga! O rendado marrom das bordas tostadas da clara, o amarelo provençal da gema... Eu sei, eu sei. Manteiga ainda não foi liberada. Mas é só uma questão de tempo.